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sexta-feira, 25 de março de 2016

Argentina – uma bussola política do subcontinente

A xenofobia facilmente nos cega a razão, especialmente quando se trata do vizinho mais importante de um grande país. As rivalidades vão bem além do futebol, porém mais cedo ou mais tarde somos forçados a render-nos aos fatos.

Em mais de meio século de existência, tenho observado reiteradamente como as tendências políticas do país hermano terminam por influenciar aquelas do Brasil –seu grande “rival” histórico-, e através deste a todo o subcontinente e mesmo ao conjunto da América Latina, mas especialmente no espectro político de independência e vanguarda social.

Com relação ao fator econômico a correlação também existe, porém com menor impacto, em função da natural liderança do Brasil. Mas em 1913 a Argentina era a décima nação mais rica do mundo, com renda per capita acima de Itália e Espanha. Conta-se que na época, os aristocratas britânicos buscavam casar suas filhas com argentinos ricos. Apesar das limitações da diversidade industrial (baseadas na pecuária e na agricultura) e a política de exportação comprometerem a estabilidade econômica argentina. Na década de 30 o país chegou a ser a sexta potência do mundo, e na década seguinte a educação começou a ser incrementada pelo governo de Perón, que também nacionalizou amplamente algumas estruturas básicas após a Guerra visando consolidar a economia social.

Sucede que a formação política argentina é realmente ímpar na região. As rivalidades com o Brasil remontam aos tempos dos Impérios, tocando à Argentina o fenômeno das “fronteiras de fogo” que no Brasil marcaram sobretudo o Rio Grande do Sul – além do vigoroso sangue mouro herdado dos espanhóis.

Quando o caudilhismo tomou conta das províncias do Plata, os rumos da Argentina foram traçados. Os caudilhos forneceram para a América Latina suas bases nacionalistas naturais, não necessariamente sociais, mas independentistas e quase sempre republicanas. No começo do Século XIX, o general José de San Martin realizava o seu trabalho de libertação de nações que hoje integram o Cone Sul, como Argentina e Chile, além do Peru. Simon Bolivar traçava um curso semelhante nas nações do Caribe, enquanto o Brasil buscava seguir o seu próprio curso.

Assim que o Brasil decidiu se aventurar por completo nas lutas do Cone Sul através da Guerra do Paraguai (1864-1870), teve que pagar o preço do alinhamento político com as nações vizinhas através da mudança do regime. O Paraguai tornara-se independente em 1852, e a Argentina era uma República consolidada desde 1863. A independência brasileira precedera-lhes em tese (1822), mas os vínculos dinásticos e as particularidades do regime eram um entrave nas relações internacionais. Uma vez decretada a República através de um golpe-de-estado, o país passou a se espelhar no grande Irmão do Norte, então referência para os povos emancipados, após a vitória dos abolicionistas na Guerra da Secessão –ainda que o tema da abolição estivesse longe de ser um consenso entre as elites revolucionárias brasileiras, servindo mais como tema de propaganda, apesar (ou por causa, quiçá) da abolição recém proclamada pela Coroa.

Não obstante, nas ondas nacionalistas do século XX, o Brasil antecipou a Argentina peronista através das iniciativas de Getúlio Vargas, não casualmente um gaúcho, variante local dos gauchos argentinos, fontes dos caudilhos regionais. Costumamos chamar este extremo sul do Brasil de “Argentina brasileira” por razões óbvias, ainda que a Banda Oriental sempre tenha preservado suas peculiaridades, especialmente pela introdução do elemento negro ali para trabalhar nos saladeros, que são as nossas charqueadas.

O Rio Grande Sul, havendo recebido uma formação cultural e política semelhante à Argentina desde Vice-Reino da Prata e da Província do Paraguai, de cujos territórios a Região Sul do Brasil viria a integrar, costuma ser definido como o Estado mais politizado da nação, orientando amiúde igualmente tendências nacionais, especialmente vanguardistas ou de esquerda. Foi o que ocorreu na ocasião da Revolução Farroupilha, a guerra interna mais longa do Brasil, quando gauchos e gaúchos deram as mãos para combater as injustiças do governo central, fazendo o Império ouvir com maior clamor as demandas republicanas. Também merece destaque que a ascensão do Partido dos Trabalhadores à presidência em 2003, foi precedida por governos do Partido neste Estado (1999, 2010) e em sua Capital (1989, 1993, 1997, 2001).


O fato da Operação Condor haver iniciado suas ações no Brasil durante a Guerra Fria, denota bem a importância global deste país no subcontinente, mas nisto se dividem perfeitamente a questão política e a econômica. A Operação fez coincidir o golpe brasileiro ao governo social de João Goulart com o começo do controle regional, sendo especialmente cruel e persecutória na Argentino e no Chile, face a proliferação da cultura nacionalista e também socialista existente nestas nações. Nisto, foi igualmente notória a dureza da polícia política no sul do país.

O Plano Austral (1985) de Raul Alfosín (que serviu de inspiração para o Plano Cruzado de José Sarney) gerou hiperinflação e baderna civil, antecipando a chegada do peronista Carlos Meném em 1989 com nova onda de privatizações. Fernando Collor de Mello despontou na presidência do Brasil em 1990 e Fernando Henrique Cardoso veio em 1995 –ambos eram vistos erroneamente como oposição, mas o último teve alguns acertos econômicos, embora embasado no Plano Real iniciado no governo do vice de Collor, Itamar Franco.

O próprio Hugo Chaves começou seu governo apenas em 1999. O peronista Nestor Kirchner chegou ao poder (2003) na esteira de Lula e lhe sucedeu a esposa Cristina, cujo governo respondeu positivamente à crise mundial de 2008, vindo a pagar a dívida externa com o FMI, coisa que o Brasil de Lula também adotou. Os Kirchner ficaram doze anos no governo argentino.


Possuindo um território com 1/3 do tamanho do Brasil, a Argentina é hoje a terceira economia da América Latina (perde para Brasil e México). Porém, o varonismo do seu povo contribui para engradecer a nação. Hoje o país hermano vive uma estafa no modelo nacionalista, que buscou resgatar após o final da ditadura militar. Então chega ao governo o conservador Mauricio Macri, com um discurso impressionante de conciliação, antecipando prováveis tendências regionais de governos moderados e de integração nacional, visando prevenir os improvisos das esquerdas e os riscos das aventuras golpistas.

Não obstante, como “país continente” que é, o Brasil está suscetível a maiores sincretismos culturais. Uma das tendências mais fortes que existe nos horizontes do país passa pela aproximação da política com a religião, coisa que pode tender para qualquer espectro político, e mais exatamente também de centro ou assemelhado. Neste aspecto é que pode surgir uma inovação, apesar das lutas republicanas pela sociedade laica, nem sempre bem aceita ou compatível todavia com países em formação.



Luís A. W. Salvi é filósofo holístico e autor polígrafo com cerca de 140 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.

Contatos: webersalvi@yahoo.com.br 
Fones (51) 9861-5178 e (62) 9776-8957
Editorial Agartha: www.agartha.com.br


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